Escrever sobre ti nada mais é do que consciencializar-te. A minha mente impede-me de viver os momentos em que te vejo a surfar porque vai contigo nas ondas e quer acompanhar o teu ritmo. Sabe exatamente as ondas que apanhas, a adrenalina que sentes e quão acelerado está o teu batimento cardíaco. Sabe porque te sente, ainda que eu não te veja. Perco-me de ti nos primeiros minutos, passas a ser um ponto preto no meio do mar azul com o pôr do sol a ameaçar a sua chegada. Perco-me de ti, perco-me do mar, perco-me dos casais que brincam ao meu lado com os cães, perco-me dos pescadores que conheces e que cumprimentas com um sorriso de orelha a orelha, perco-me do castelo que se encontra no meio da praia, perco-me do mundo em que vivo, das andorinhas que por ti passam, dos surfistas que me interpelam, das ondas que apanham e das manobras que fazes. Perco-me de tudo, menos de mim. Só não me perco da minha consciência que me atormenta mais um pouco a cada milésima de segundo que passa. Não consigo ver-me livre da necessidade de pensar sobre o que vejo, de pensar sobre o que fazes, sobre o que não fazes, sobre o que- a meu ver- deverias ter feito, e sobretudo, da minha incapacidade de ser livre. Não sei lidar com o que não está politicamente correto e muito menos quebrar porções do dogma que é a minha vida. A efemeridade dos momentos que passo contigo leva-me ao pote de outro por detrás do arco-íris, só é pena eu não saber o como agarrar o tesouro e trazê-lo comigo. Tomei consciência que não sei aproveitar as oportunidades que a vida me dá. Não sei fechar os olhos e sentir o mar, o vento e a areia molhada. A minha mente apodera-se de me levar a um sítio que não é aquele e quando chego a casa, apercebo-me que tudo o que queria era voltar àquele lugar para me ensinar a viver cada segundo. Sou demasiado racionalzinha, intelectualzinha, mesquinha e santinha. A vida tem vindo a passar por mim a uma velocidade estonteante e tudo o que sinto é que deixei de conseguir acompanhá-la. Entretanto ela l(d)ançou-te em mim e deu-me a oportunidade de alargar os horizontes e de fazer algo por mim. Tudo o que quero é que fiques, que lutes comigo e que me ensines a surfar, a cozinhar, a beber, a fazer amor, a amar a natureza como só tu amas e sobretudo... A viver com a paz interior com que tu vives. Tenho uma esperança do tamanho do oceano em que te vi a surfar hoje... Leva-me contigo para onde fores. Lembra-te que a tua prancha há-de sempre ter espaço para mim.
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