Escrever tem sido tão difícil como acordar. Não surge, não dá prazer, não apetece. Não vale a pena, sei que nos momentos a seguir, os pensamentos vão atormentar-me na mesma. A música está alta. Há quem consuma para se sentir inspirado, eu coloco a música no máximo para não me conseguir ouvir. Apenas se não me ouvir, consigo ser eu. Eu sei que a única forma de me soltar da voz interior que me sufoca é caso algo se imponha a ela. Choro quando te vais embora porque tu representas a música no volume máximo. Choro porque quando estou ao teu lado não a ouço- perco-me em ti e não há espaço para ela. Entrego os meus medos, os meus pesadelos e os meus sufocos àquele que sei que é o homem da minha vida. "Vou sentir a tua falta", não porque vás para França ou para a China, mas porque não serás capaz de me tocar e de me salvar. Sinto-me mesmo muito vulnerável, quase que intocável mas baixo as guardas para ti. Tenho medo, tenho pavor, mas foda-se. Já perdi tanto... Se te perco a ti, perco-me a mim. Sei disso tão bem quanto tu. Posso lutar contra o mundo mas desisto de lutar contra ti. Quando olho friamente para mim, sei que me queixo de nada- tenho ao meu lado a pessoa que mais amo, os meus pais estão bem, os meus avós também, eu tenho saúde e sou uma sortuda por tudo o que fazem por mim. Mas dói tanto chegar ao hospital e ver a minha família desmoronada. A minha prima entregue a ela mesma, o meu tio perdido no vazio, a minha mãe e o meu outro tio a chorarem como desalmados. Que desespero... Só quem passa pode perceber. Que vazio. Não faz sentido. Não é justo. Não consigo falar contigo sobre isto porque sei que quem não vive, não percebe. Sei que quem não passa, não pode sentir... Com isto tudo, quero dizer-te que me entrego a ti de corpo e alma e que não vou lutar mais contra isso. Espero, do fundo do meu coração, que tenhas consciência que te entrego um tesouro. Quero ainda que saibas que é um prazer partilhar a minha vida contigo, que este "ano e dois meses" passou a voar e que quero acordar todos os dias ao teu lado. Quero que percebas que as minhas lágrimas não são (nem nunca serão) em vão. Choro porque o que sinto por ti não cabe no peito. Meu amor, "amar-te muito", é muito pouco.